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Epitáfio de quem quer viver


(Foto: Vitória Abdalla)

Acordo e me surpreendo com a chuva suave que está caindo lá fora. Em dias normais, o máximo que sinto é um calor infernal. Poder presenciar dias chuvosos é como aqueles quadros intocáveis e que valem uma fortuna em museus e exposições, raros e valiosos.
Levanto-me ansiosa, pois, finalmente, chegou o dia em que farei minha primeira viagem com minha melhor amiga. Aquela no qual faço planos, traço metas e sonho alto. Sonho mesmo. Vou longe, mas mantenho o pé no chão. Com ela, sinto que posso acionar meu modo sonhador e planejar mil e uma coisas para a minha vida. Ela me motiva a ir atrás de todos os meus sonhos. Motiva-me a abrir mão de certas coisas. Motiva-me a ir sempre além do que eu imagine ser capaz.
Pego a mochila que preparei com umas coisas - digo, kit sobrevivência - e saio de casa deixando pessoas que amo, mas sabendo que, por mais que eu corra riscos, voltarei o quanto antes para abraçá-los e dizer "senti saudades". A cada passo, sentia que seria um dia com incríveis experiências e de muito aprendizado.
Sentei-me no banco traseiro do carro e ao olhar pela janela pude notar o quanto o mundo é estranho. À medida que o carro andava, as coisas que estavam lá fora tomavam vida. Pessoas andavam com o passo apertado, como quem perdeu a hora. Outras, apenas estavam sentadas olhando tudo ao redor - e, talvez, estivessem observando tudo com os mesmos olhos que eu.
Sou daquelas pessoas que viajam uma vez na vida e outra na morte - inclusive, isso é um dos planos de mudanças na minha vida, pois uma pessoa viajante e sonhadora como eu, não merece ficar em casa vivendo uma vida monótona, tendo um mundo inteiro a ser desbravado lá fora, apenas esperando uma iniciativa.
Não que eu viaje tanto quanto deveria, mas não me recordava do quanto é bom viajar em dias chuvosos. Há quem diga que viajar com chuva é ruim. Mas, o meu olhar apreciador da natureza diz totalmente o contrário. É inspirador poder observar aquelas gotículas que parecem apostar corrida no vidro do carro. É maravilhoso poder ver o mundo com um tom cinzento como o tom das manhãs.
Estava tão abismada com tudo o que tinha ao meu redor, tão contente por conhecer lugares totalmente novos, por sair da rotina e fazer diferente que nem notei que o dia havia passado rápido demais. Já estava no início da noite e eu precisava voltar para casa.
Achei que meus aprendizados do dia já haviam acabado e que eu, simplesmente, sentaria no carro e voltaria para casa ouvindo aquelas músicas que não tiro da playlist de jeito nenhum.
Mas, foi aí que a minha vida mudou.
Enquanto observava as luzes dos carros que passavam rapidamente de um lado para o outro, comecei a me questionar sobre tantas coisas. Sobre amores, a vida e dores. Sentia-me angustiada com tantas perguntas que, para mim, não faziam sentido algum.
Olhei para a tela do celular acesa e decidi que escreveria minhas dúvidas nas notas do celular - para não alarmar minhas confusões com o restante das pessoas que ali estavam - para a minha amiga ler. Eu não tinha respostas, mas talvez ela tivesse.
"- Você tem medo de ficar sozinha?" foi a primeira coisa que me veio em mente. Assim fiz. Escrevi e passei - discretamente - o celular para ela.
Confesso que fiquei ansiosa para saber a resposta e saber se os sentimentos dela eram como os meus.
Quando recebi o celular de volta, me deparei com: "- Como assim sozinha? Que tipo de solidão?".
Olhei para a janela em busca da resposta certa e, quando notei, meus dedos já corriam pela tela do celular.
"- Sem ninguém ao seu lado para compartilhar momentos da sua vida. Aqueles momentos únicos que você deseja passar, nos quais constam momentos de viagens e aventuras pelo mundo. Simples acontecimentos num dia chuvoso. Alguém que você possa dizer que ama sabendo que é recíproco e saudável."
"- Não é medo. Na verdade, é um tipo de receio de não ter com quem compartilhar momentos incríveis. Quem nós somos sem pessoas do bem com quem possamos compartilhar as coisas mais simples da vida? E você?"
"- É o que mais temo. As pessoas parecem tão bem e felizes com pessoas que adoram. E eu acho que não estou nem perto disso - não que eu possa saber se estou perto ou não. Acho que é pelo fato de que a querida vida nos faz gostar de alguém que, na verdade, não é bem o que deveríamos ter em nossas vidas. E da mesma forma que nos dá, nos tira. É triste!"
"- Pensando por este lado, a vida é realmente horrível, triste, solitária. Mas, em minha opinião, o mundo é bem horrível e ao mesmo tempo tão incrível também, e isso acaba compensando. Tudo dá certo no final. Se não está certo, é porque você deve aguentar firme, pois ainda não está no final. Deus só nos dá o que aguentamos. Entende? Por um lado, é péssimo. Mas, quando a gente olha pelo outro, vemos que as pessoas e os lugares compensam. E tudo o que nós passamos compensou para chegarmos aonde chegamos. Talvez a felicidade esteja nas coisas mais simples da vida."
"- E eu não consigo enxergá-las. Sinto-me mal por isso. Mas, às vezes, um sorriso rotineiro pode não ser de felicidade verdadeira. Não tem como evitar."
Naquele instante, uma frase da música que tocava no ambiente - e eu que nem havia notado - soou leve em meus ouvidos.
"Quem sete vezes cai, levanta oito."
Ela logo completou: "Tudo posso, mas nem tudo me convém."
Fiquei um tempo sem saber o que responder. E - xeque mate - ela disse algo que guardei a sete chaves.
"- A vida é um jogo, alguns não sabem jogar, mas dão sorte porque seus pais souberam. Alguns até sabem, mas alguém vem por trás e os tira do tabuleiro. Só ficam os fortes. Aqueles que aguentam todos que vêm atrás armados com tristeza e fraqueza. A vida não é um jogo de sorte, e sim, superação. E, só fica quem é forte o bastante. "As peças vão voltar pra mesma caixa no final do jogo" e o que as diferencia não é o tamanho que elas têm - não fisicamente -, mas sim, o quanto elas são capazes de jogar."
E eu entendi. Calei-me, pois tudo o que li fazia muito sentido para mim.
Respirei fundo, fechei os olhos, concentrei-me na música que tocava no momento e pensei: eu quero viver independente das circunstâncias.

-Vitória Abdalla


5 comentários:

  1. Quero te parabenizar, pois já disse uma vez e volto a repetir que você é muito talentosa, e mais uma vez soube expressar-se perfeitamente! Adoro seu trabalho continue assim :)

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    1. Eu nem sei como agradecer esse carinho!
      Muito obrigada, de verdade!
      Fico muito feliz em ler coisas tão positivas!

      Obrigada pela visita e pelo recado!
      Beijos! ♥

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  2. Adoreeeei, *-*
    Visite e siga o meu, seguindo o seu. bjos
    www.apaixonadaporleiturass.blogspot.com.br

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    1. Fico contente por ter gostado!
      Obrigada pelo comentário!
      Pode deixar que visitarei o seu sim.

      Beijos! ♥

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  3. Amei!! Tão ávido e vivaz...chega a ser poético...

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